Sinuoso o caminho. A vista vai 
vivendo a paisagem 
monótona ou 
inesperada. Não se sabe o que 
para além de cada curva 
nos espera. Pode tudo 
mudar: casario, 
uma nova floresta ou 
a ravina intransponível. 
Detenho-me ante a curva, 
ganho tempo, 
hesito ante o mistério 
que pode armadilhar 
o passo inevitável. 
Também tu te deténs, 
suspensa. Curta meditação. 
Lenta, muito lenta, 
vejo a unha lacada, 
escarlate, 
avançar novamente, 
acompanhar a sinuosidade 
quase imperceptível 
da veia azul que sobe 
para a glande. Ignoro 
o que me vem ao encontro 
para lá da curva 
que se segue. Casario, 
uma nova floresta ou 
a ravina intransponível? 
A mão está ainda 
muito calma. Sem o grito 
da posse, imaginando 
que curva as suas unhas 
poderão 

15 - 6 - 1991

In E NO ENTANTO MOVE-SE , Quetzal Editores, 1995
Egito Gonçalves
[[SINUOSO O CAMINHO. A VISTA]]
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