A parte do indolente é a abstracta vida.
Quem não emprega o esforço em conseguir,
Mas o deixa ficar, deixa dormir,
O deixa sem futuro e sem guarida.

Que mais haurir pode da morta lida,
Da sentida vaidade de seguir
Um caminho, da inércia de sentir,
Do extinto fogo e da visão perdida,

Senão a calma aquiescência em ter
No sangue entregue, e pelo corpo todo
A consciência de nada qu’rer nem ser,

A intervisão das cousas atingíveis,
E o renunciá-las, como um lindo modo
Das mãos que a palidez torna impassíveis.

30 - 9 - 1921

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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