Sim, sim, eu conheci—o.
Realmente era negro, luzidio,
Madrugador, jovial.
Sim, e de manhã cedo
Deveras se encontrava entre o arvoredo
Mas sem risadas (de ave fazem medo),
Nem (que quer dizer isso?) de cristal.
Nesta altura, acabado o romantismo,
Um melro só a um melro é que é igual.

Quanto à história, nem cismo.
Acabou mal,
Com Natureza contra Bíblia, como,
Em épocas de um outro assomo,
Seria Bíblia contra a Natureza,
Com igual misticismo.

Veio o Junqueiro, filho da Certeza,
E o melro morreu realmente
(Mas morreu de o fazerem gente),
Caindo do ar real e insciente
Num gesto de asa que despreza.

E o gesto de asa diz — pois tudo fala
No romantismo, ainda quando cala:

«Sou um melro, e não um sócio vil
Da Associação do Registro Civil.
Sou um melro totalmente, e existo
Alheio a Cristo ou não-Cristo,
Sem dar lição alguma sobre nada,
Mera alimária alada,
Inconsciente, como o céu de estar
Onde está, de mover-me e de cantar.
E se morri, arre!, morri.
Com isso provo que vivi.
Morri: pois deixem-me morrer
Sem me quererem compreender.

«E quanto aos versos subversivos
De Igrejas e Escrituras,
Deixem-se disso: são motivos
De audácias que já nem são bravuras.
Vejam claro,
Escrevam raro,
Tenham verdade ao menos no sentir,
E então por certo me ouvirão a rir,
Madrugador, jovial,
Logo de manhã cedo
Cantando entre a verdade do arvoredo
E não entre a mentira universal.


[21-5-1029]

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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