Tudo se vai ajustando
Ao fim que terá que ser.
Sem acção, aguardo e espero.
Férias: só o vento brando
Enche de nada o que quero,
Toca de bem o que vier.

Depois da curva da estrada,
Da jornada sem razão,
Terei o conhecimento
De quanto havia de nada
Em meu pleno pensamento
E minha inteira sensação.

E então, livre do Destino
Cujo poder entravou
O que fui sem que existisse,
Entoarei o meu hino
Ao Deus que me deu que visse
Que não sou esse que sou.

 

22 - 4 - 1934

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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