Batam-me à porta 
os que andam lá por fora, à neve; 
batam 
os que tiverem frio ou sede; 
os que sintam saudades de um carinho; 
os desprezados; 
os que há muito não vêem uma flor 
e encontram só poeira no caminho; 
os que não amam já nem já os ama 
ninguém; 
os esquecidos de como se sorri; 
os que não têm Mãe... 

Batam-me à porta os Desgraçados, 
os que têm os dedos calejados 
dos dedos ásperos da Miséria, o
s que travam desordens nas tavernas 
e brincam às facadas, 
os que não têm abrigo nem Amigo, 
os que o Destino escarrou, 
os que não foram crianças, 
os que nasceram num bordel 
e por quem passam todos sem olhar. 

Batei à minha porta, Irmãos, 
entrai, 
que eu tenho Amor pra vos dar... 

E se eu também bater 
(que eu também choro 
muitas vezes, lá por fora; 
também amargo tristezas; 
que eu também sou Desgraçado)... 
Pois se eu bater, 
vinde logo depressa abrir-me a porta; 
aquecei-me no meu lume; 
dai-me do pão que eu parti 
e do Amor que vos dei... 

Deixai-me estar entre vós 
como se fosse um de vós, 
que eu também sou Desgraçado... 

Ah! se eu bater 
(mas é preciso que eu possa 
ter força ainda nas màos), 
por Deus abri a porta, meus irmãos, 
como se a casa fora vossa!... 

In SERRA-MÃE , Ática, 1991
Sebastião da Gama
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