O Medo, o Ódio, a Dor escravizam e consomem
Brutal e eternamente o nosso coração,
E cousas mil e vãs, inúteis, sem razão,
Minam e mnnam mais o coração do homem.

A Vaidade, o Poder, a Convenção, a Fé
Fazem-nos animais, e muito e muito vício
Abre-nos bem aos pés um fundo precipício
P’ra onde avançamos como autómatos o pé.

Mas se é mau ter horror à Justiça, à Verdade,
Se é pior admirar os chefes e os reis
De mais ignóbil há - animalmente às leis —
O medo da revolta, o horror à liberdade.

Falo convosco, oh vós que em boticas e em tendas
E em grupos estacando em frente às livrarias
Levais a discutir, com vãs palavras frias,
As velhas opressões, já podres e delendas.

Falo contigo sim — tu de chapéu de coco
Pássaro preso na gaiola do Usual...


In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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