I

Ó borboleta de algumas cores
Quem me dera ir aonde’ tu fores,
Talvez a vida seja melhor
Fora de aqui, seja onde for.
Aqui a vida tem sempre gente
E há muita cousa que a gente sente
Por não ser sempre inteligente.
Ó borboleta, quem dera ter
As tuas asas para viver;
Que inda que o fim fosse morrer,
Que mais fé tem quem sabe ler?

[II]

Tanta gente a pensar, tanta gente a fazer
E a vida sempre a correr
Num sentido que não tem nada com isso...
E isso tem alegria?
Ó vida, deixa-me viver!...
Tanta gente a ser diferente
E tudo a mesma gente!
Tanta gente fora de aqui
Mas toda ela indo estar ali.
Tanta gente a pensar, tanta gente a sentir,
E afinal só o que acontece
É que se pode conseguir.

[III]

Casas com gente, e gente na rua,
E a gente, despida, fica só nua.
Buscam alguns um brinquedo só
Os outros buscam p’ra fazer dó
Com vidas e cousas que vão vingando
E toda a gente vive enganando.
Se toda a gente dissesse a verdade
A vida da gente era só metade,
Por isso é preciso buscar seu riso,
Quer com brinquedos quer com a vida
E fazer de conta que há cristo
E puxar à linha a máquina partida.

[IV]

Boneca, quem sabe se és alguém?
A gente toda que a vida tem
Amar-se mais que a boneca, sim,
Mas está toda fora de mim,
Como a boneca que é só assim.
Quem sabe o que é ser boneco hem?
Quem sabe se todos somos assim?

24 - 11 - 1924

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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