Vão regulares os pequenos do asilo
Como soldados, mas com mais vagar,
Olho-os e em mim não está tranquilo
      O que sente por pensar.

Pobres crianças postas em fila
Pelo Destino, quatro a quatro vão
Dóceis (Minha alma não está tranquila)
      Comuns na sua solidão.

Vendo bem e à luz do sentimento,
Não sofrerei eu mais que eles? Sim,
Talvez, talvez… Mas neste momento
      Não penso em mim ―

Penso nos que sem ninguém senão escola
Sem achar amor senão em uniforme,
Vão, pedintes que não pedem, sem sacola,
      Sós, juntos, pelo mundo enorme.

Seus passos são leves e breves ― são de infância
Sem pais, sem nada, iguais, regulares, vão
E vão calcando, ignorantemente, na distância,
      O meu coração.

10 - 12 - 1933

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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