Qualquer caminho leva a qualquer parte. 
Todo o caminho passa em todo o mundo. 
Em duas toda a senda se biparte 
Em cada ponto seu, o céu profundo 
E a própria estrada sempre para diante — 
Deus e nós, o Eterno e o vagabundo. 

Em mim todo esse céu e a estrada errante 
Iguais estão, em mim Deus, mundo e eu, 
Em mim a estrada, e eu sou o caminhante... 
Por mais que seja todo o passo meu 
Não sai fora de mim, nem o que vejo 
E absolutamente terra ou céu. 

Mas tão meu como um sonho ou um desejo 
Salvo de estar no exterior em mim, 
No ponto em que Deus toco, e 
□ 

Toda a viagem é em mim, por isso 
Por mais que eu ande só me encontro e vejo 
Por mais que veja no □ maciço 
Só o meu rosto de alma reflectido 
Consegue ver o mundo exterior 
Participante do não ser. 



□ Espaço deixado em branco pelo autor
17 - 11 - 1916

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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