deram-me o lado molhado da casa para viver
em redor a terra saturada de voláteis sementes
os tanques de abundante água e a fértil noite
fendendo a seda calcinada das últimas visões

balbucio um canto inaudível... por vezes
ao amanhecer ainda penso em ti... avisto o rio
que se aproxima da porta e corre rente ao sono
lava os cabelos turvos do ciúme... desperta
a confusão silenciosa do amor

são meus estes ofegantes lírios
pertence-me esta fulguração de ouro sobre o rosto
que se move no espelho da minha idade... meus os olhos
assustados pela precária alegria das pedras
e das violetas atadas aos pulsos... a paixão pelo sangue

os dedos correndo sobre a lâmina de vidro quebrado
a respiração sufocada da cidade... o exíguo corpo
das palavras onde esqueço a voz e me reconheço
em ti escuto o coração do poema latejar


In O Medo
Al Berto
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