- «Porque é que choras?» diz o cego à amante,
Que os olhos dele com ternura beija:
«Choras, bem sei, sentindo que eu não veja
«Tua nudez de lírio cintilante.

«Se o sol, porém, me nega a luz brilhante,
«Mal esta boca nessa pel’ doideja,
«Do amor à luz serena e benfazeja,
«Logo te vejo, entre clarões flutuante!

«Beijar-te é ver-te! Se de mim te achegas,
«Já não sou cego, tu é que me cegas,
«Sou borboleta, já não sou crisálida!

«Vejo-te, crê! Quando ontem, ao sol posto,
«Me dizias adeus, beijei teu rosto,
«E os meus beijos acharam-te mais pálida!»

 

 

 

Eugénio de Andrade
O AMANTE CEGO
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