O rio sem que eu queira, continua.
Espelha-se, fora de eu ser eu, a lua
Nas águas do meu ser independentes…
Meus pensamentos, sóbrios ou doentes
Nunca saem p’ra fora do meu ser.
No barco ao pé da margem, ao mover
O remador os remos, fica tudo…
A noite é clara, o coração é mudo
E a palavra que eu vou dizer, e fora,
A ser dita, a noção na alma da hora,
Passa, como um murmúrio vão de vento…
E eu, só na noite com meu pensamento
Não me distingo do que me rodeia…
E então é só real a lua cheia…
30 - 1 - 1919

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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