Minha janela deita para a Névoa
E a névoa é tudo, e o Universo ao meio. —
Se me procuro, nos meus olhos leio
A hora virtual e em mim elevo-a.
Minha tristeza, devo-a
Ao ritmo essencial do meu enleio.

Que sentido têm frases, se o poente
Há mesmo nas palavras como um lago.
Ao colo do meu espaço interior trago
Um sonho eterno adiado para doente.
A hora passa rente
Ao meu íntimo dia sempre aziago.
 
Ah, a ilha deserta, em mar, ao fundo
Da minha consciência!
E entre nós dois a imprecisão do mundo.

6 - 3 - 1915

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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