De cada vez que nos teus braos 
Por uns momentos morro, 
Nos abismos de mim o meu amor pede socorro 
Como se fora algum lhe desatasse os laos. 

De cada vez apreendo 
Que fica em muito pouco, ou nada, aquele tanto 
Que o querer ter promete, enquanto 
Se no tendo. 

Desejar que ter! mas no nos basta. 
Sonhar que possuir sem tdio nem cansaos. 
Sei-o, mas s j morto nos teus braos. 
Sofre a carne de ter, ou de ser casta. 

Sobre o desejo farto, a alma se debrua, 
Contempla o nada a que o fart-lo aponta. 
E atrs do mesmo nada eis que ela mesma, tonta, 
Vai, se a carne reacende a escaramua. 
 
Entrar num corpo at onde se oculte para 
O paraL do corpo — eis o supremo sonho. 
De que desejos o componho, 
Sei-lo se descompe quando o desejo avulte? 

Sfrega, a carne pede carne. 
Saciada, Pede, ela prpria, o que jamais sacia. 
Para de novo se inflamar, um dia. 
Para de novo desgostar, um nada. 

Ai, como no te amar e no te aborrecer, 
Carne de leite e rosas, — terra inglria 
Do longo prlio-entendimento sem vitria 
Que carne e alma, ter-no ter? 


In Poesia II - Obra completa , Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2001
José Régio
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