O meu vizinho serralheiro
Sabe salvar a humanidade.
É simples — fica o mundo inteiro
Composto de uma só metade.

Cessa o burguês, o cheio abdica
Da sua submissão latente...
E então o mundo inteiro fica
Composto da metade ausente.

Se não é isto que o vizinho
Tem por melhor do futuro,
Prisões, que expliquei sozinho,
O que ele quer é mais obscuro.
 
Composta assim de não haver
A humanidade, enfim feliz,
□  e de sofrer.
É o serralheiro que o diz...

Ó, pagã felicidade!
O certeza de um porvir fagueiro!
Ah Minerva, por que amabilidade,
Meu Deus, por que infelicidade
Não me fizeste serralheiro?

26 - 9 - 1923

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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