De Apolo o carro rodou pra fora
Da vista.  A poeira que levantara
Ficou enchendo de leve névoa
    O horizonte;


A flauta calma de Pã, descendo
Seu tom agudo no ar pausado,
Deu mais tristezas ao moribundo
    Dia suave.

Cálida e loura, núbil e triste,
Tu, mondadeira dos prados quentes,
Ficas ouvindo, com os teus passos
    Mais arrastados,

A flauta antiga do deus durando
Com o ar que cresce pra vento leve,
E sei que pensas na deusa clara
    Nada dos mares,

E que vão ondas lá muito adentro
Do que o teu seio sente alheado
Enquanto a flauta sorrindo chora
    Palidamente.

12 - 6 - 1914

In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, 2000
Ricardo Reis
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