«És o homem» disse, «eu sou o que, proposto
Mártir desde que há o mundo, a hora ansiava.
Dou-te a Palavra, que perdida estava
“Amai-vos uns aos outros” — isto é tudo.

Em meu nome virão muitos tiranos
Impor ao dorso dócil dos humanos
A cruz e o martírio em que me vês.

Por símbolo que sou todos me tomem!
Tenho as mãos presas: não estrangulo o homem.
Tenho os pés presos: não o calco aos pés.»

Mas, antes que morresse, e inda desnudo
Na cruz onde a agonia começava
Ele olhou o homem carnal que estava
E logo parou ante Ele, inerte e mudo.

Tem pálida e terrosa a ignóbil face
E o cabelo empastado em sangue e suor
O pendurado que é nosso Senhor.
Sobre o Calvário o dia vão desfaz-se.

Seu insultado vulto sem amor
Vil pende. Ninguém veio que o buscasse
É mentira que a Mãe ali  o amasse.
Só os soldados bocejam em redor.

A humanidade inteira o abandonou.
Há três cruzes aonde o poente se afastou
Do farrapo divino na mais alta.

 


In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
« Voltar