A tua voz fala de amor..
Tão meiga fala, que me esquece
Que é falsa a sua meiga prosa.
Meu coração desentristece.

Ah, como a música sugere
O que na música não ‘stá,
Meu coração nada mais quer
Que o sonho falso que em ti há...

Amar-me? Quem o crera? Fala
Na mesma voz que nada diz...
Se és uma música que embala,
Eu oiço, ignoro e sou feliz.

Não há felicidade falsa,
Enquanto dura é verdadeira,
Que importa o que a verdade exalça?
Ou sou feliz desta maneira?

22 - 1 - 1929

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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