O meu menino não dorme.
Não sei como dormirá.
Lá fora a noite é enorme
E não há lua, não há…

Meu menino chora, chora,
Não tem sossego consigo
Voltei-o p’ra mim agora,
Mas não dorme, não consigo…

Já cantei quanto se canta…
Já lhe falei do papão…
Já lhe disse como encanta
A fada que tem condão…

Mas ele não dorme; vejo
Sempre os seus olhos abertos…
Dou-lhe um beijo e outro beijo
E estende os braços despertos…

Dorme, meu menino, dorme
Que a mãezinha vai dormir!
Lá fora a noite é enorme…
Dorme, meu menino, dorme
Que já te vejo a sorrir…

19 - 1 - 1935

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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