MOTE

Teus olhos, contas escuras,
São duas Ave Marias
Du’m rosário d’amarguras
Que eu rezo todos os dias.

GLOSA

Quando a dor me amargurar,
Quando sentir penas duras,
Só me podam consolar
Teus olhos, contas escuras.
D’elles só brotam amores:
Não há sombras d’ironias;
Esses olhos sedutores
São duas Ave Marias.
Mas se a ira os vêm turvar
Fazem-me sofrer torturas
E as contas todas rezar
D’um rosário d’amarguras.
Ou se os alaga a aflição
Peço p’ra ti alegrias
N’uma fervente oração
Que rezo todos os dias!

3 - 1902

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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