Dormimos o universo; a extensa mole
Da confusão das cousas nos engana,
Sonhos; e a ébria confluência humana
Prolixa ecoa-se de prole em prole.

O ouvido atento, que se às portas cole
Onde suspeita deuses, só se ufana
Da pulsação do sangue em si, que irmana
Seu som com passos que a distância estiole.

Cegos que um louco guia, atravessamos
A inútil extensão do impossível,
Barulhando ervas húmidas e ramos;

E a um rumor longínquo e insensível,
De que talvez, indo, nos afastamos,
Damos o ouvido surdo e iludível.

 


25/26-9-1924

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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