Não sei para que serve o continuar
A encher de dias a arrastada vida
Já de arrastada □ e dolorida
E sempre prestes a não acabar.

Já estou farto até de me fartar
Vago em alma até ver em mim descrida
Minha própria existência, □
Já muito além de não poder esp’rar.

São estas as razões porque vida vivo
Eu vivo, enfim, por me sentir vivendo,
E inda que eu seja □ esquivo

A ver no mundo um ser ou uma cousa,
Continuo descrendo e não descrendo
Como o que a ideia de ousar não ousa.

 

8 - 3 - 1910

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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