dos cachalotes, é o espermacete que me embriaga a existência 
o olor quase insuportável de tenebrosas orquídeas bordadas aos alicerces ancestrais da casa 
a vegetação meticulosa, com suas seivas lentas, onde o corpo ou um inocente desejo se escondem 
os tanques lavam roupa e os répteis esquivos parecem devastar o sonho 
inundando-me a boca com densos venenos 
nas pálpebras, interrompe o musgo seu minúsculo crescimento 
respiram bolores enquanto as polposas flores chamam a si as zelosas abelhas 
      
apesar de tudo o corpo prepara-se para o grito 
é-me dolorosa a memória daquele lugar de água luminosa 
só os dedos sujos de terra e visco aprenderam a peregrinar sobre os inter-
mináveis mapas 
percorreram sobre a mesa a rota dalgum albatroz perdido 
espremeram frutos, que têm sabor a noite 
e trazem demorados amores 
      
lembro-me, facilmente esquecíamos os iridescentes berlindes 
os tímidos mas rigorosos jogos de areia 
nenhum vento veio perturbar o sábio trabalho das mãos 
acendia-se um fogo no centro daquela nova-idade, descobria-se 
um tesouro em forma de rosto, estou certo de que nos amámos 
e para o interior da terra descendo
há um segredo e uma casa velhíssima, uma porta de alvenaria
ou o que resta de um atrevido espelho


      a fuga é ainda possível, dizias
      estávamos sentados frente ao lume, falávamos baixo
      uma salamandra lisérgica soltava-se de manhã, um vulcão extinto evocava
outra longínqua solidão
      olhávamos o fogo
      e no mapa dos corpos tínhamos ainda toda a Samatra por descobrir

 


In O Medo
Al Berto
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