Cedo vem sempre, Cloe, o inverno, e a dor.
É sempre prematuro, inda que o spere
      Nosso hábito, o esfriar
      Do desejo que houve.
 
Não entardece que não morra o dia.
Não nasce amor ou fé em nós que não
      Morra com isso ao menos
      O não amar ou crer.

Todo o gesto que o nosso corpo faz
Com o repouso anterior contrasta.
      Nesta má circunstância
      Do tempo eternos somos.

Sabe mais’ da arte com que viva a vida
Aquele que, de tão contínua usá-la,
      Forte ao tempo a vitória
      Das mudanças depressa,

E entardecendo como um dia trópico,
Até ao fim inevitável guie
      Uma igual vida, súbito
      Precipite no abismo.

7 - 7 - 1919

In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, 2000
Ricardo Reis
[[CEDO VEM SEMPRE CLOE O INVERNO E A DOR.]]
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