Onde a serenata?
Dormem os arvoredos.
Há mosqueios de prata,
Luar em rastos e enredos...

Cantam que vozes suaves?
Enche-se a alma de querer
Ter qualquer cousa das aves
Para a poder entender...

Oh, sombras longas, levai-me
Até a quem vós cantais...
Na vossa música dai-me
Melhor dor que a dos meus ais...

Vinde buscar-me ao desejo,
Despi-me da ilusão...
Vosso murmúrio não vejo...
Não ouço a vossa canção...

Mas na cor oca do luar,
No lago alado da brisa,
Há vozes indo a cantar
Pela floresta indecisa...

E em serenata levantam
Os seus suspiros ao céu,
Qual é a mágoa que contam
Que é melhor que o gozo meu?

O que é [que] buscam que querê-lo
Vale mais que em nós ter?
Que olhos tem, que cabelo,
Essa invisível mulher?

Não há maneira de eu ir
Da humanidade p’ra onde
E entre essa mágoa sorrir
Onde o luar se esconde.

Ah, ensinai-me o unguento
O óleo das bruxas loucas
Com que atingir o lamento
Preso nas vossas bocas.

Olho, e só vejo o luar.
Escuto, e nem ouço a brisa.
Quem é que está a cantar?
Quem, que a minha alma precisa?...

9 - 3 - 1917

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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