Na erva brincam meninos.
Cobrem a erva a sorrir.
Mais tarde, ao som leve de sinos,
Já não há-de haver meninos
E a erva é que os há-de cobrir.

Na brisa ligeira os vestidos
Das senhoras a brincar.
Mas, vindo os fados temidos,
Hão-de vestir, sem sentidos,
O solo onde hão-de enterrar.

Na brisa rodam os risos.
São risos de quem existe.
Mas nos seus tempos precisos
Hão-de dormir todos lisos
No mesmo chão verde e triste.

E tudo isso, que faz pena
Afinal só finge ser.
Não creias na erva serena
Nem na má terra morena.
Não chores. Não há morrer.

Todos os meninos ledos
E as senhoras a brincar
São para os deuses brinquedos.
Fazem-nos morrer por medos.
Durmam bem, que hão-de acordar.

 

 

 

 

 

 

26 - 12 - 1932

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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