O antigo sono, o quente sono humano,
Dorme, no avito leito, □

Felicidade humilde e sem grandeza
Que uma candeia bastou a alumiar

Assim falou, e eu, □ disse:
«Suave o lar o lar pequeno e a grande calma.
Os deuses dão a vida e o sentimento
Para sentir a vida como vida.
A audácia do □ e do intento...»

Mas ele respondeu: «Não é o lar
Nem a mulher e os filhos o que atrai
Para trás quem nos longes ermos vai
E o que não sabe o que é parte a buscar,
Não é a acalma quem nos chama,
Nem voz de quem nos ama.
Outra cousa nos puxa para trás,
Outra saudade nos saudades faz.

O amor às cousas porque são pequenas
Porque não há-de haver, se às grandes há
Quem ama por ser grandes?

Amar o lar e a casa só por eles
Não serem a distância e o desejo.

Coso ao fim da tarde a rede miúda,
Na lareira inclinado esqueço o frio.
Se cismo em mim, nada em minha alma muda,
Não sinto o coração vazio.

Por não ser grande e não ‘star longe eu amo
A minha casa humilde e o lar estreito.
São como o nome avito que me chamo:
Mais meu que o que conquisto e que sujeito.
 
Nasceu comigo a pequenez humana
Meu braço não foi grande.
Se cismo, tenho a lida por insana,
Não porque canse, mas porque □

Não amaria o infante o seu brinquedo
Se fosse grande; infantes todos nós
Temos um ousado e alegre medo
Das grandes cousas que nos deixam sós
 
E, em homem já, o sono da criança,
O sono antigo e maternal.

Não é que o esforço canse, e a ânsia afaste.
Não é que a fome vaga da aventura,
A sede intolerável do contraste
Com a vida pequena e a sorte dura
Impilam pelo asco a esta estreitura.
É que o mundo completo é do tamanho
De uma só sensação.
Esta vida pequena, inteira a tenho;
A vida ampla e grande, estreito-a em vão.
Possuo mais quando possuo pouco
Porque completamente dono sou.
O imenso espaço por ser grande é oco
Partir é ficar sempre onde não estou.
Afasto-me de mim quando me afasto.
Disto quando procuro. Ó candeia,
Pões no meu chão paterno um parco rastro
Mas tens calor para a minha alma cheia.»

24 - 11 - 1919

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
« Voltar