Aquele breve sorriso
Que a tristeza entendeu,
No ar já tão impreciso
Que já nascendo morreu.
De que veio esse sorriso?
Porque é que ele foi meu?

Não me lembra que lembrança
Por acaso o alumiou,
Ou se foi fé a ‘sperança
Que nele me clareou.
Fui um momento a criança
Que morri e não voltou.
 
Ah, fugídia doçura
Do que nem se descobriu,
Nuvem negra da amargura
Que a lua cobre, e a cobriu.
Fica lembrança e ternura
Do que não se possuiu.

Tiveste a vaga doçura
Do que nesse mundo fugiu.
Na memória ao menos dura,
Sorriso porque sorriu.

28 - 11 - 1924

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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