O sulmonense Ovdio, desterrado
na aspereza do Ponto, imaginando
ver-se de seus parentes apartado,

sua cara mulher desamparando,
seus doces filhos, seu contentamento,
de sua ptria os olhos apartando;

no podendo encobrir o sentimento,
aos montes e s guas se queixava
de seu escuro e triste nacimento.

O curso das estrelas contemplava
e como, por sua ordem, discorria
o cu, o ar e a terra adonde estava.

Os peixes pelo mar nadando via,
as feras pelo monte, procedendo
como seu natural lhes permitia.

De suas fontes via estar nascendo
os saudosos rios de cristal,
sua natureza obedecendo.

Assi s, de seu prprio natural
apartado, se via em terra estranha,
a cuja triste dor no acha igual.

S sua doce Musa o acompanha,
nos versos saudosos que escrevia,
e lgrimas com que ali o campo banha.

Destarte me afigura a fantasia
a vida com que vivo, desterrado
do bem que noutro tempo possua.

Ali contemplo o gosto j passado,
que nunca passar pola memria
de quem o tem na mente debuxado.

Ali vejo a caduca e dbil glria
desenganar meu erro, coa mudana
que faz a frgil vida transitria.

Ali me representa esta lembrana
quo pouca culpa tenho; e me entristece
ver sem razo a pena que me alcana.

Que a pena que com causa se padece,
a causa tira o sentimento dela;
mas muito di a que se no merece.

Quando a roxa manh, fermosa e bela,
abre as portas ao Sol, e cai o orvalho,
e torna a seus queixumes Filomela;

este cuidado, que co sono atalho,
em sonhos me parece; que o que a gente
para descanso tem, me d trabalho.

E depois de acordado, cegamente
– ou, por melhor dizer, desacordado,
que pouco acordo tem um descontente –

dali me vou, com passo carregado,
a um outeiro erguido, e ali me assento,
soltando a rdea toda a meu cuidado.

Depois de farto j de meu tormento,
dali estendo os olhos saudosos
parte aonde tenho o pensamento.

No vejo seno montes pedregosos;
e os campos sem graa e secos vejo
que j floridos vira e graciosos.

Vejo o puro, suave e brando Tejo,
com as cncavas barcas que, nadando,
vo pondo em doce efeito seu desejo:

ũas co brando vento navegando,
outras cos leves remos, brandamente
as cristalinas guas apartando.

Dali falo co a gua, que no sente,
com cujo sentimento a alma sai
em lgrimas desfeita claramente.

fugitivas ondas, esperai!
que pois me no levais em companhia,
ao menos estas lgrimas levai;

at que venha aquele alegre dia
que eu v onde vs is, contente e ledo.
Mas tanto tempo quem o passaria?

No pode tanto bem chegar to cedo,
porque primeiro a vida acabar
que se acabe to spero degredo.

Mas esta triste morte que vir,
se em to contrrio estado me acabasse,
a alma impaciente adonde ira?

Que, se s portas tartreas chegasse,
temo que tanto mal pola memria
nem ao passar de Lete lhe passasse.

Que, se a Tntalo e Tcio for notria
a pena com que vai, que a atormenta,
a pena que l tem tero por glria.

Esta imaginao me acrecenta
mil mgoas no sentido, porque a vida
de imaginaes tristes se sustenta.

Que pois de todo vive consumida,
por que o mal que possui se resuma,
imagina na glria possuda,

at que a noite eterna me consuma,
ou veja aquele dia desejado,
em que Fortuna faa o que costuma;
se nela h i mudar um triste estado.

 

Luís Vaz de Camões
[O SULMONENSE OVÍDIO DESTERRADO]
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