O orvalho da tarde beija Vagamente a minha face, Vagamente e sem tocar; E em mim sem que eu queira nasce Uma ânsia que só deseja O que não pode encontrar. A lágrimas não me leva, Mas aspira dubiamente Ao que nem está no porvir; E em mim a minha alma sente Onda que suave se eleva Para suave cair. Ah, esta alma, onde não arde Centelha que nada avive, Não envolvei (esp'rança vã!) A Transcendência que vive Desde o orvalho da tarde Ao orvalho da manhã!
15 - 11 - 1908

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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