Tirem-me os deuses
       Em seu arbítrio
Superior e urdido às escondidas
       O Amor, glória e riqueza.

       Tirem, mas deixem-me,
       Deixem-me apenas
A consciência lúcida e solene
       Das coisas e dos seres.

       Pouco me importa
       Amor ou glória,
A riqueza é um metal, a glória é um eco
       E o amor uma sombra.

       Mas a concisa
       Atenção dada
Às formas e às maneiras dos objectos
       Tem abrigo seguro.

       Seus fundamentos
       São todo o mundo,
Seu amor é o plácido universo,
       Sua riqueza a vida.
 
       A sua glória
       É a suprema
Certeza da solene e clara posse
       Das formas dos objectos.

       O resto passa,
       E teme a morte.
Só nada teme ou sofre a visão clara
       E inútil do Universo.

       Essa a si basta,
       Nada deseja
Salvo o orgulho de ver sempre claro
       Até deixar de ver.

 

6 - 6 - 1915

In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, 2000
Ricardo Reis
[TIREM-ME OS DEUSES ]
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