Ao luar dos mortos, na paisagem gelo,
Defunto e absurdo sobe com vagar
Ao som do vento. O homem contra o luar
Vendo-se, de modo morto o seu cabelo.

Seu gesto nem de ameaça, nem de apelo.
Nada, um vulto difuso a branquejar.
E meu coração a fôlego
Alto, um frio sopro, trémulo de vê-lo.

Sem ver-se a lua enche, e o resto é vago e preto
Vazia consciência, ao mistério
O que te falta? A última estátua nua

O resto nem o mundo nem nossa alma
Uma paisagem falsa, cuja calma
Não é de morte nem de vida — a Lua.

 


In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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