Tudo quanto é beleza tu conténs
E quanto de amor há, que o tem nela,
No indefinido sentimento dela:
Tudo isso há em ti, tu és e manténs.

A vida com seu vago □ bens
E o mundo de consciência que revela
Tudo se inclui em ti, inda que se vela
O não poder-te ter, tudo que tens.

Amo-te por amar-te desprezando-me
E o meu desprezo fere o meu amor
Dum sentimento tão total de dor

Que a dor pode ser um sentimento, dando-me
Mais sentir faz-me mais sentir no querer-te
No não poder querer poder obter-te.

11 - 2 - 1912

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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