Bem, hoje que estou só e posso ver
 Com o poder de ver do coração
Quanto não sou, quanto não posso ser,
 Quanto, se o for, serei em vão,

Hoje, vou confessar, quero sentir-me
 Definitivamente ser ninguém,
E de mim mesmo, altivo, demitir-me
 Por não ter procedido bem.

Falhei a tudo, mas sem galhardias,
 Nada fui, nada ousei e nada fiz,
Nem colhi nas urtigas dos meus dias,
 A flor de parecer feliz.

Mas fica sempre, porque o pobre é rico
 Em própria casa se procurar bem,
A grande indiferença com que fico
 E um sonho… Leve-o quem o trate bem.

 

2 - 7 - 1931

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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