Dormes sorrindo... Sonhas... Quero mais
Para mim, porque sofro mais
Dá-me, ó noite caladas, sonhos tais
Que, sonhando, eu me esqueça de sorrir.

Confia do meu ser enternecido
Pela desgraça de si próprio, o sonho:
Entregar-to-ei mais sonho, mais ardido
De quanto o tédio poupa de risonho.

Dormes, sorrindo sempre... O vago luar
Escurece de luz o quarto vago
Ócio na sombra... sonho... Sou um lago
Que não sabe que é rio ou praia ou mar.

Abandono o meu ser... Pertenço como
Um objecto na noite ao quarto teu...
O luar parece um falso sol, assomo
De morte a arder na  do céu.


 espaço deixado em branco pelo autor

13 - 7 - 1912

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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