Eu digo, Senhor, que si;
não tenho disso querela.
Confesso que sou cadela
e de cadela nasci
e sou mais perra que ela.
E porém as cachorrinhas
com os cães deste teor,
e os gatos, e galinhas,
se fartam das migalhinhas
da mesa de seu senhor;
quanto mais os teus amigos manjares,
que és padre das campanhas,
fartas montes e montanhas
e desertos e lugares,
até bichos e aranhas!
Com glória, mui sem trabalho
fartas os mares e rios,
e as ervas de rocios,
e os lírios de orvalho
nos lugares mais sombrios.
Oh criador liberal,
que lá nos bosques perdido
tens os bichinhos providos,
e a mim só, por meu mal,
os emparas escondidos!
Pleni sunt coeli et terra
majestatis gloria tua.
Pois, inda que seja perra,
não me leixes tu tão nua
nesta triste e cruel guerra!
Que se há remédio sem ti,
eu não posso entender,
e, se te esquivas de mi,
que excomungada nasci,
quem outrem pode absolver?
Oh tisoiro de prazeres
e esperanças merecidas,
pelos teus santos poderes
te peço, Senhor das vidas,
que tu não me desesperes.
e se por ser cananeia
e filha de perdição,
desprezas minha oração,
a mísera anima mea
onde achará redenção?
Se perco por mulher ser,
por meus errores profundos,
Senhor, deves tu de ver
que nasceste de mulher
escolhida entre mil mundos!

 

Gil Vicente
SúPLICA DE CANANEIA
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