Dá-me a tua mão. Com meus olhos feridos
Eu quero ver o que esta mão contém:
Ah, um mundo de esperanças está aqui!
De sentimentos, dúvidas e dores!
Oh, pensar que esta mão possa conter
O mistério dos mistérios em si.

Esta mão tem um sentido que não sabes,
Senso mais profundo que humanos medos;
Esta mão por ventura em tempo ido
Terá enxugado estranhas lágrimas;
Talvez seu gesto fosse de desprezo,
E seu prender, talvez, fosse dorido.

Nela está o que a minha alma sonha
E as sombras que visitam minha mente;
O soprar do vento, o rio a correr,
O correr do rio, o soprar do vento,
Tudo é horrível e indefinido
Das coisas que são às que vão parecer.

Quando olho essa mão, a mente está cheia
De memórias mais profundas que rimas;
Tua mão é em minha alma parte da vida
E já a sabia antes do vir do tempo,
E já no passado me levou ao crime
Em guerras sagradas duma era esbatida.

Um mundo de dor, medos e suspiros
E de amor, que melhor fora ódio,
E crimes e guerras e também conquista,
E a queda triste de muitos impérios
Tudo isto e mais, que o peito entristece,
Minha alma louca em tua mão avista.

Nenhum pintor doido, nenhum fetichista
Cego ficaria assim sobre esta mão.
Ao mero pensamento de eu a beijar
Estremeço dum medo nunca sentido
No pensar que desperta na humana mente,
Salvo se a razão de si se afastar.

A tua mão tem um sentido que ignoras,
Sentido mais fundo do que humanos medos;
Tem algo do mar, do sol a brilhar
E das estações, dos meses e anos,
E a cor oculta em humanas lágrimas,
E a forma e soma em humano pesar.

Tua mão foi lar vazio e sublime,
Colar de pérolas, torre de castelo;
Ela conhece o pensamento ocioso;
É a música eterna e funda que manteve
Minha alma dormente antes de eu nascer
Num palácio em cúpula, raro e curioso.

Que bem desenhada é esta tua mão
Com seus dedos tão brancos e esguios,
Macia, quente, delicada e fina;
Há algo nela da noite e do dia.
Ah, criança querida, pudesse em ti ler
A escrita que vejo, sábia e divina.

Há quase um Facto que persiste e paira
Como num pergaminho sobre a tua mão:
Como se uma ideia viesse morder
Num lugar ignoto desta minha alma.
Dentro de mim e longe um sino dobra,
E o coração desvaira com esse bater.

Algo de novo, de irreal, de selvagem
Há em tua mão, onde o meu olhar dói:
Como se ela em si tudo ver pudesse —
O horrível pensar onde o medo nasce
Dum louco grotesco, na sombra sustido,
Como se, do Ideal, um aviso trouxesse.

Algo há de Próprio, d'Ela mesma, um Quê
Na tua mão que sobre mim perpassa
Um pavor de assassino agarrar;
Não sei como, minha mão sente na tua
O eterno, e a mente louca rodopia
Como se a eternidade pudesse tocar.

Nessa mão não vejo a mão, mas onde a razão
Deste terrível Facto que em mim cresce?
Ah, tenho da tua mão a intensa visão
Mas, mais do que ela, vejo em seu lugar
Essa elisão abrupta que se deu
Entre o pensar das coisas e a sensação.

Meu pensar olha a mão directamente
Sem olhos ou sentido ou algo disto,
E em tal olhar a razão se afunda
Num medo em que a dor e a ventura
Mergulham na consciente inconsciência,
Pois não é já a mão que o sonho vislumbra.

E fixo o meu olhar e me sacudo
Do sonho de tempo, do sonho de espaço
E, como um náufrago se afunda no mar,
Sonho com o espanto do que sonhamos
Em cada coisa, mergulhando inteiro
No sentido do mais que vem mostrar.

Há algo de belo, agreste e superior
Na tua mão e eu amo-a por isso;

Por temer mais que o infernal pensar,
Num súbito portal para o Visível
Tenho um vislumbre do Absoluto.

O ver a tua mão de novo vem abrir
Os mudos portais para um céu horrível.

Tua mão é como música onde ganho,
Passado um medo louco e amarga dor,
Coisas mais estranhas que o Sentido de Sete.

Tudo fita em mistério a minha mente,
Mas mais a tua mão dada ao olvido;
Vibrando em muda, indefinida vida,
O que é em si a tua mão, para além
Do sentido onde o coração se prende,
O reino do pensar onde a alma é cega?

Onde está a alma que essa mão revela
No próprio ser-ela que o pensar assusta?
Que sinos esses que dizem MÃO ao repicar,
Que cruzam impossíveis infinitos?
O que enche as noites de raios que são mãos
Onde o medo se congela no pensar?

Leva a tua mão; agora sonharei
Com terras estranhas, raras e grotescas,
Regadas por rios de mágoas correndo,
Cujas ondas mãos, cujas margens mãos,
Jardins com árvores cujas folhas mãos
E uma branca mão o sol escondendo.

E bandos de mãos são visíveis — sem som -
Só sentidas ao toque no pensar vidente
Dançando e gritando, se envolvendo
De uma forma meramente visual,
Mas nunca fechadas, sempre firmes e rígidas
Inda que veloz seu trágico movimento.

Então oh, mais horror, elas ganham vida,
Realmente vivas agarram, apertam,
Contraem, contorcem, e o pensar se desprende,
E quais vermes ou cobras que a garganta
Tocassem, mínha alma enjoa e vomita
Em tal horror que o medo transcende.

E o que se segue não posso contar,
Como se em loucura percorresse, só,
Caminhos de inferno onde a mão se adia
De tal modo que, se a queixa de um louco
Pudesse, em sua alma, ser conhecida
Isto lhe seria como à noite o dia.

E meu pensar se arrasta em tensa fadiga;
Louco e grotesco, veloz ou lento,
Tosco e sem graça, volteia na mente,
Bruscamente louco no seu rodopio,
Como um palhaço em cortejo fúnebre
Ou gargalhada no meio do tormento.


1906

In Poesia , Assírio & Alvim , edição e tradução de Luisa Freire, 1999
Alexander Search
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