Suspiro triste
Da imensidão,
Que é o que existe?
Se estendo a mão
Na solidão
Ninguém me assiste!

Amor, perdi-o
Sonhos deixei.
Eu tenho frio
Na imensidão!
Quem sou não sei.
Sinto vazio
Meu coração.

Sou cego, vendo,
Só vivo, horror
No eterno sendo,
Onde me acoito
Deste amargor?
É frio o chão
Que fria a noite,
E os astros são!

Tenho desejo
De poder ter
Sono, bocejo
De n’alma haver
Um sono, e então
Ser impossível
E inconsciencível
À imensidão.

Dá-me que deite
Minha alma em medo
No teu regaço,
Ó noite, e aceite
Por suave segredo
Teu negro espaço,
E a solidão
E os astros mudos
Escuros e surdos
Ao coração!

Que eu durma em alma
Sem sentir mesmo
Surgir a calma,
Que eu durma todo
Nada no nada
Lodo do lodo
Chão e só chão.
 
E aí que quem venha
Pisando então
O pó, não tenha
Desejo vão;
Saiba a ignorância
E o amar amor
E a  da vida
 fragrância
Espontânea dor
Da flor nascida.
Acabe então
Na alma minha
O horror que a invade
Sentir baixinho
Ao coração
A imensidade
Da solidão.


 espaço deixado em branco pelo autor

15 - 5 - 1910

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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