Deixo ao cego e ao surdo
      As opiniões inteiras,
Que eu quero sentir tudo
      De todas as maneiras.

Do alto de ter consciência
      Contemplo a terra e o céu,
Olho-os com inocência:
      Nada que vejo é meu.

Mas vejo tão atento
      Tão neles me disperso
Que cada pensamento
      Me torna já diverso.

E como são estilhaços
      Do ser, as coisas dispersas
Quebro a alma em pedaços
      E em factos diversos.

E se a própria alma sinto
      Com outro olhar,
Pergunto se há ensejo
      De por minha a julgar.

Ah, tanto como a terra
      E o mar e o vasto céu,
Quem se crê próprio erra,
      Sou vário e não sou meu.

Se as coisas são estilhaços
      Do saber do universo,
Seja eu os meus pedaços,
      Impreciso e diverso.

Cada um entende e sente
      Sem ser senão quem sou

Se quanto sinto é alheio
      E de mim se sente,
Como é que a alma veio
      A conhecer-me como ente?

Assim eu me acomodo
      Com o que Deus criou,
Deus tem diverso modo
      Diversos modos sou.

Assim a Deus imito,
      Tudo quando fez o que é
Tirou-lhe o infinito
      E a unidade até

Cada árvore é só ela,
      Cada flor ela só

□ espaço deixado em branco pelo autor

24 - 8 - 1930

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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