Assim confuso no teu ser-não-ser,
Não deixes inda o meu ser já perdido...
Mais vácuo! faz-se o lume em ter havido,
O errado em ter sido seria ter.

E esse futuro vácuo que já sou
Se espelha já no meu ser dividido...
Depois transcendo-te e a ti-próprio ao olvido
Sem ter havido em que já estou!

E eu hoje, aqui, com forma e ser morto.
Só viva esse invisível transcender,
Seja já o caminho e o vácuo-roto...


[1918]

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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