Sob estas pedras jazem os vampiros! 

A vida foi-lhes pródiga por séculos; 
pisaram sempre a relva; mas agora, 
finalmente, banidos, no silêncio, 
mergulhados entre vermes e poeiras 
transformam-se no húmus que não foram. 

Os homens amavam sem serenidade; 
as mulheres não tinham filhos sem remorsos. 

Sob estas pedras jazem. Com o sangue 
bebido aos que buscavam as estrelas, 
inventaram alguns Deuses protectores, 
fizeram sobretudos contra o ódio, 
gizaram itinerários de assassínio.
 
A vida era alguns pássaros, por vezes, 
logo engolidos pelo pesadelo.
 
A morte veio, fulminante, certa, 
com os olhos inflexíveis dos famintos. 
Violenta, como a Deusa da Vingança, 
extinguiu no ar, por uma vez, 
o grito de rapina dos seus voos.
 
É doce a hora 
de que os ponteiros já não ceifam sonhos. 


In O PÊNDULO AFECTIVO - ANTOLOGIA POÉTICA:1950-1990 , Edições Afrontamento, 1991
Egito Gonçalves
EPITÁFIO PARA VAMPIROS
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