Aquela loura a olhar a rir
Que tinha o lenço descaído
E cujo andar faz descobrir
O que há por trás de seu vestido,
Aquela loura faz-me mal
E o meu olhar foi casual.
 
É isto. A gente vive asceta
E acha bastante só pensar
E em plena rua vem a seta
Que um corpo é arco de atirar.
Sim, o ascetismo continua
Mas fica essa visão da rua.

E entre mim e o que escrevo passa
O meneio que não olvido,
O olhar azul rindo com graça
A boca, o lenço descaído,
E já meu coração não tem
A calma em si que lhe convém.

Mas (não desejo exagerar)
Não pesa muito esta visão
Que vem assim arreliar
A minha firme solidão...
O mal que faz consegue conter
Qualquer prazer.

Bem: vamos à filosofia,
A cada qual, inda se o nada
Acata, há sempre uma alegria
Que dá e passa e dói e agrada...
E solidão todos a têm
O caso é que procurem bem.

 

25 - 12 - 1930

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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