Poeira em ouro pairando
      Sobre a brancura da estrada
      És poeira e mais nada.

Poeira grisalha em rajadas revoando
      Sobre a monótona estrada
      És poeira, e mais nada.

Poeira negra nevoando
      A parda e indefinida estrada
      És poeira, e mais nada.

      Ténue poeira levantada
      Da vida da estrada
Poeira pairando, revoando, nevoando
Sobre a branca, a monótona ou negra estrada
      Poeira de sombras vivendo
      Ai de nós — és poeira e mais nada.

Por mais longe que a poeira
Possa ir
Cai sempre.

A poeira é sempre da estrada.


27-5-1909

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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