O fim do longo, inútil dia ensombra.
A mesma ‘sp’rança que não deu se escombra,
Prolixa... A vida é um mendigo bêbado
Que estende a mão à sua própria sombra.

*

Dormimos o universo. A extensa massa
Da confusão das cousas nos enlaça
Sonhos; e a ébria confluência humana
Vazia ecoa-se de raça em raça.

*

Ao gozo segue a dor, e o gozo a esta.
Ora o vinho bebemos porque é festa,
Ora o vinho bebemos porque há dor.
Mas de um e de outro vinho nada resta.

*

Cada dia me traz com que ‘sperar
O que dia nenhum poderá dar.
Cada dia me cansa da ‘sperança.
Mas vivo de ‘sperar e de cansar.

*

Raças da cor do ouro ou cor do cobre,
A mesma terra as tem e o sol as cobre,
Nem fica da cor de uma ou da cor de outra
Mais nada que lembrar, nem sob nem sobre.

*

Já quase vezes quatro vezes dez
Meu sol me ao mesmo ponto trouxe e fez
Velho tanto quanto há velhice em tudo
Quanto o Destino fez porque desfez.

*

Não cures, não medites, não empregues
Um só esforço no que ames ou que negues.
Nada é nosso — nem nós, que um Fado estranho
Manda. Não vais na ‘strada: a estrada segues.

*

Mil como tu nesta hora põem a mente
Em negar o desejo do existente,
Mil, como tu, como se acorda, são
Novos servos do eterno e vão presente.

*

É inútil dizer o que se pensa.
Se é  frouxa a frase, é nada; e é vã se é intensa.
Cada um compreende só o que sente,
E entre alma e alma a estupidez é imensa.

*

Ah, bebe! A vida não é boa ou má.
O que lhe damos é o que ela dá.
Tudo é restituído ao que não foi.
E ninguém sabe o que é ou haverá.

*

O esforço dura quanto dura a fé.
Mas quanto a quem não é dura o quê?
Ah, bebe, bebe, bebe, até ‘squeceres
O como, donde, aonde, onde e porquê!

*

Já me cansei de ouvir dizer farei.
Quem de fazer ou não fazer é rei?
Animal a quem a alma foi imposta,
O homem dorme irrequieto. Mais não sei.

*

Não digas que, sepulto, já não sente
O corpo, ou que a alma vive eternamente.
Que sabes tu do que não sabes? Bebe!
Só tens de certo o nada do presente.

*

Deixa numa complexa sonolência
A tua consciência da ciência.
Vê-te branco no vinho, espelho roxo,
E depois bebe o espelho... e a consciência.

*

Quantas cabalas meditei! No fim
Nem encontro a elas nem a mim.
Deixa o oculto em seu poço. Enquanto duram,
O sol nos baste, e as casas, e o jardim.

*

Sem desejo ou ‘sperança, amor ou fé,
A vida enche de a enjeitar, até
Que chegue a hora de arrumar brinquedos
E ir para a cama. Tudo é o que não é.

*

Talha como quiseres tua vida,
Já foi talhada antes de ser vivida.
Para que queres contornar no chão
A sombra que se vai da nuvem ida?

*

Morreste, eu choro, e choro mais pois sei
De que saudade choro e chorarei.
Não é a saudade de tu já não seres:
É a saudade de quando eu não serei.

*

É inútil tudo, até o sabê-lo. O dia
Conduz à noite, que de novo o cria.
Nas vésperas augustas da renúncia,
Tu à mesma renúncia renuncia.

*

Sábio é o que fecha à chave o que não tem,
Para que o nada que é não saiba alguém.
Toda máscara cobre uma caveira.
Toda alma é a máscara de ninguém.

*

Da ciência não cures, nem de usá-la.
Para que serve, nesta obscura sala
Que é a vida, medir mesas e cadeiras?
Usa-as, não midas; tens que abandoná-la.

*

Enquanto o sol é luz, mudos gozemos.
Depois que é só sol ido, repousemos.
Quando volte, talvez nos não encontre.
Mas também pode ser que nós voltemos.

*

Ciência pesa, consciência dessossega.
A arte é manca, a fé longínqua e cega.
A vida tem que ser vivida, e é inútil.
Bebe, que a caravana nunca chega.

*

Bebe. Se escutas, ouves só o ruído
Que ervas ou folhas trazem ao ouvido.
É do vento, que é nada. Assim é o mundo:
Um movimento regular de olvido.

*

Colhes rosas? Que colhes, se hão-de ser
Motivos coloridos de morrer?
Mas colhe rosas. Porque não colhê-las
Se te agrada e tudo é deixar de o haver? 

*

Doze vezes o sol amável muda
De signo e sem ajuda nos ajuda.
Vamos vivendo, e somos o que somos
Até que a quem não somos morte acuda.

*

Todo o universo é outra cousa, e a lida,
Como alga morta, ou folha que é caída,
Bóia à tona de nada. Um vento passa,
Agita um pouco as águas, e isto é a vida.

*

Troca por vinho o amor que não tens.
O que ‘speras, perene o ‘sperarás.
O que bebes, tu bebes. Olha as rosas.
Morto, que rosas é que cheirarás?

*

Se hás-de morrer, qual tudo que se vê,
Viver trinta anos ou cem anos é
O mesmo. Bebe e ignora. Cospe a ‘sp’rança,
Vomita a caridade e mija a fé.

*

Como a poeira um momento levantada,
Pelo vento que vem e vai, na estrada
O sopro oco da vida nos levanta
Do nada, cessa, e nos devolve ao nada.



‘Sperar cansa. Pensar não cansa menos.
Que te corram monótonos, serenos,
Sem pensar nem ‘sperar, os dias nulos,
Cada vez mais fatais e mais pequenos.

*

A vida é terra e o vivê-la é lodo.
Tudo é maneira, diferença ou modo.
Em tudo quanto faças sê só tu,
Em tudo quanto faças sê tu todo.

*

Manda quem manda porque manda, nem
Importa que mal mande ou mande bem.
Todos são grandes quando a hora é sua.
Por baixo cada um é o mesmo alguém.

*

São velhas as estrelas, e elas são
Grandes. Velho e pequeno é o coração,
E contém mais do que as estrelas todas,
Sendo, sem ‘spaço, maior que a imensidão.

 


In Poesia do Eu , Círculo de Leitores, edição de Richard Zenith, 2006
Fernando Pessoa
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