Ah, nunca, por meu bem ou por meu mal,
      Converti minha dor
      Em dor universal!
Por eu sofrer não sofre quem não sofre...

Ditosos os que podem, pervertendo
      Seu pranto em dor de tudo
      ‘Star assim convivendo,
Ainda que só com a imaginação.
      São humanos, e eu não.

Felizes os que podem erigir
      Sua alma em universo
      E sofrer a expandir!
Quanto mais sofro, mais pertenço a mim.
      Choro, e não sou afim.

Meu coração não pode ter a crença,
      Por sofrer, que todo o orbe
      Vive uma dor imensa.
Sofro sem outros, sem pesar nem dó,
      Sofro eu, sofro só.

Só gozo a liberdade indefinida
      De não ter a ilusão
      De que sou toda a vida,
De que sou símbolo, eu que só isto sei:
      Nada sou nem serei.

Alheia a mim a humanidade vasta
      Ri, com pencas de choro.
      E a alegre vida arrasta.
As almas altas sofrem sem trocar
      Padecer por amar.

24 - 9 - 1927

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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