I


Agora que o calor esmaga, e faz
Mais morta em nós a magoada vida,
Ao meu espírito turvo mais apraz
A ideia de uma Sesta Indefinida.

À sombra duma árvore encolhido
Com um dormir-ali-de-abandonado
Sem a memória alvar de ter vivido
Ou a consciência vã de ter pensado,

Eu gozaria a dor de ser somente
Uma morte de mim, sentindo apenas
Uma vida remota pertencente
A uma alma minha alheia às minhas penas.

Seria eterno aquele meio-dia,
Sempre sol. Nunca porque refrescasse
Ou porque escurecesse acordaria
Meu ser nulo que apenas respirasse
 
E omitido de mim o tempo e o espaço
Olhos fechados — os do corpo e os da alma —
Eu dormiria a eternidade, baço
Numa quente e impessoal’ calma.

Seria assim a Sesta Indefinida...
No regaço da morte,  infante
Eu viveria a imensidão da vida
Ao torpor que anuvia o mero Instante.


II


Eu nada sou, e nada valho. Penso,
Memoro, e fica em mim o que 
E é sempre mais estéril e intenso
Meu desejo de ser mais do que sonho...

Esvai-se no sonho o raciocínio vão
Que tivera a alegria ao começar
Sinto pesar-me em corpo o coração
A minha própria carne em mim pesar...

Eu nada sou, pois nada realizo,
Há entre mim e o mundo o abismo eterno
Do sonho ser apenas o impreciso
E o mundo externo não ser mais que externo.


 espaço deixado em branco pelo autor


[12-7-1912]

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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