As fadas são pensamentos,
Mas pensamentos são gente…
No interstício dos momentos
Vivem a vida contente,

Com que, se nada sentimos
E nada sequer pensámos,
Nós os vimos, nós os vimos…
Depois dizemos que errámos.

De um lado, a rua é vazia
Do outro há campo, agro e misto.
Mas, enfim, não haveria
Qualquer coisa mais do que isto?

De onde vem esta saudade
Que não deixa o coração
E um pensamento invade
Sem que lhe (eu) saiba a razão?

Foi só a rua deserta
Ou só o campo sem fim,
Que me deu a paz incerta
Que chora dentro de mim?

10 - 8 - 1934

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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