Senhor, busca ir p'ra Ti minha oração,
Um pobre gesto despegado e rouco
Desejo □ de ter perdão
Não sei porquê.... eu se pequei, foi pouco
E se errei, não errou meu coração...

Mas esta noite uma dor vaga cobre
Maré negra o meu ser aflito e frio...
A minha inteligência é um pobre dobre
Minha imaginação um dossel sobre
Minh'alma, trono inútil e vazio.

Reles e vil como um actor vendi
Meus gestos de alma ao luar vil da grei...
Quanto ganhei, vejo hoje que o perdi...
Chegado ao fim de tudo, eu ficarei
Senhor, com todo o mundo mas sem ti...

Ó ânsia inconsolável e prolixa
Consciência estéril dum desejo vão.
Vamos de sensação em sensação...
Turbilhão somos... Nada em nós se fixa
Salvo o tédio em nosso ermo coração

Dá-me a Força que doma e se respeita
A forte disciplina que sossega...
Mostra ao meu coração a estrada estreita
Por onde a alma muda por fim chega
A merecer a consciência eleita

Ensina-me a ter fé e a ter esp'rança
Não as sei ter salvo p'ra fazer versos...
Passo a vida na inquieta e □ abastança
De mil projectos □ e dispersos
E ao longe a Morte para mim avança...

Na fria noite a lua de hoje eleva
Lenta entre nuvens sua calma
Dentro em meu ser sua luz branca neva
Outra dor mais aguda para esta alma
Que cada imagem tensa no devaneio me leva...

Uma ânsia de paz final e tua
Senhor, uma alta raiva em poder crer...
Ó a antiga ascensão da □ lua!
E o disperso silêncio que é a sua!
Ah, como tudo □ faz sofrer!

Aquela paz das almas dos Antigos!
Aquele calmo medo de ir na vida!
Aquele correr dores e perigos
Não como nós, podem ter vida vivida,
Mas para fins úteis como trigos...

Um ócio intelectual e caprichoso
Paira hoje por nós... Temos na mão
Nossa alma, analisá-la é o nosso gozo
Mas breve □
Nosso defunto e inútil coração,

Quem nos sossegará? Quem, senhor, quem?
Que herança da doença e do amargor
De nossos pais □ nos vem?
Palhaços de nós mesmos, nossa dor
É para nós □ um bem

Brincamos com o Eterno e com o ignoto,
Não reparamos que cada hora é Deus...
Nosso olhar gera a cor do céu remoto
E não vê que nos céus que gozo e noto
São apenas a sombra de outros céus...

Quem fará que creiamos e que amemos...
Nossa fé não é fé, e o nosso amar
É um brincar de barqueiro com os remos
Para entreter o não saber remar
Com □

Ó grande céu homérico e sereno!
Por sobre as nossas novas confusões
E o nosso tédio estéril e pequeno
Deixa cair em flocos de perdões
Tua neve de seres velho e ameno.

Clássico e igual e sempre simples e uno
Curva perfeita, céu perfeito, ar...


[1909]

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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