Oh, Deus, se Tu és mais que o nada
Escuta esta frágil prece lançada
Como a alta chama que nada acalma
Do inferno que é a minha alma:

Oh, Deus, não me deixes enlouquecer!
Eu sei que estarei já quase demente;
Sinto atrás da fronte jovem, na mente,
Horrores que a custo ela quer conter,
Ideias que zombam da minha razão
E põem de lado a inibição;
Sinto em cada dia, diariamente,
Pelo menos no inferno dum instante,
A consciência parar totalmente
E a razão em rodopio constante.

Que eu não me torne, ó Deus, num tarado,
Mesmo de outro modo me torturando;
Mas que eu mantenha, mesmo que pisado
Sob o pé do Tempo e mesmo provando
Horrores conhecidos humanamente,
Uma parcela do senso real
Que, por inteiro, goza o homem normal.
Não me separes, oh não, completamente
Dos homens, por um mal inconsciente.

Sofro, mas não deixes por um momento,
Inda que assim da dor fosse poupado,
Passar ao vazio do pensamento,
À demência total, fel odiado
Enchendo a alma, até que essa amargura
Tornada parte de nós, vai afundar
A alma toda inteira na loucura.
Um pouco da razão, oh, deixa ficar!

Derrama sobre mim males e dor
E tudo o que a alma em amargura
Enche de horror e de mudo terror;
Mas a loucura, a total loucura
Afasta da mente amedrontada.
A dor que nos seca e vem matar,
O amor que destroça o coração,
Os cuidados que gastam e podem levar
À morte, em ignóbil aflição —
 Tudo isso venha, mas sem permitir
Que a vera loucura possa advir.

Basta — quem sabe se, no mero escrever,
A loucura em mim não está inteira?
Quem sabe, quem pode ao certo ver?
Onde a vista correcta e verdadeira
Que o próprio abismo vá encontrar?
Quem sabe se não estarei louco a valer?
Oh, tremenda tortura de o saber!
Quem sabe se julgando-me a sonhar,
Mas inconsciente, eu, ao passar
Não dizem: «Lá vai o jovem demente»,
Sendo isso verdade, certamente?

Quem me diz que, enquanto estou a pensar,
Esse génio que sinto em mim presente,
Essa inspiração aonde vou buscar
Tudo o que foi antes, além morte,
Eu não deliro, pura e simplesmente?

Quem sabe, quem algo pode dizer? —
Ao escrever rodopia a minha mente,
Vazio me encontro e da luz carente —
Que eu não esteja louco inteiramente...
Oh dúvida, agonia, inferno do ser!

Basta, basta! Dejxa-me acreditar
Que estou são e, onde quer que Tu habites,
Ó Deus, minha prece vem escutar
Da alma abalada em medo sem limites.

De outras maneiras me tortura,
Esmagado, pisado, escarnecido,
Em funda agonia mergulhado
Eu seja o próprio medo e amargura;
Mas, meu Deus, a loucura sem sentido,
Dessa loucura eu seja poupado!

 


In Poesia , Assírio & Alvim , edição e tradução de Luisa Freire, 1999
Alexander Search
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