Quem não quer vir, que não venha, 
que o dó me faz perdoar 
e persistir na Campanha. 
Talvez, 
quando eu já for percebido, se arrependam, 
e a troça então se lhes mude 
num sorriso constrangido. 

Não venham, que eu vou por eles 
e gritam por mInha boca suas bocas, 
fechadas, ou por vergonha, 
ou por orgulho, ou por falta 
de aquela fé que me arrasta. 

Descansem! 
Se eu lá chegar, faz de conta 
que quem chegou foram eles;  
e faço da mu1tidão
a capa para os meus ombros; 
e Deus, que não me distingue 
(eu com todos me pareço), 
pra não deixar-me sem prémio 
há-de dar a cada qual 
o prémio que eu só mereço. 

Se eu lá chegar... 
Mas eu chego!... 
Nem que de aqui a trés passos 
se me cansassem os braços 
e as pernas se me partissem 
e a vida se me acabasse, 
ali, na terra, caído, 
já eu teria chegado: 
tanto vale minha Esperança, 
que o Céu começa onde quer 
que eu solte a última voz; 
e a Mão que as feridas me afague, 
no gesto de as afagar, 
deixou as portas do Céu 
abertas de par em par. 


In SERRA-MÃE , Ática, 1991
Sebastião da Gama
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